Abril 10, 2013

Dissipando a perplexidade

Posted in Uncategorized às 13:31 por MariBarreto

LEFEBVRE BANNER FELLAY

Aproximamo-nos do 1º aniversário de descobrimento das correspondências trocadas entre os bispos resistentes da FSSPX, que então eram 3, e a direção desta, encabeçada pelo bispo e superior geral D. Bernard Fellay, descobrimento que desencadeou, em maior escala, o processo de resistência à mudança de orientação na FSSPX. Segundo todas as perspectivas humanas, mas também segundo a maneira divina habitual de proceder  frente à correspondência ou não à graça, a FSSPX nunca mais será a mesma, pois o liberalismo é um veneno muito sutil que, uma vez inoculado, mostra-se rebelde a tratamentos mitigados. Tendo entrado no corpo de uma sociedade, sua anulação exige diagnóstico imediato claro e insofismável, com medidas práticas consequentes e proporcionais ao contágio. Ora, isto só pode ser efetuado por uma autoridade que zela, com toda a clarividência e firmeza de vontade, pelo bem-comum da sociedade. Mas que fazer quando a própria autoridade é a mais atingida pelo dito veneno que entenebrece a mente e perverte a vontade?[i]

Ocorre hoje no mundo da Tradição algo de semelhante ao que ocorreu nos anos do pós-Concílio: sente-se o mal, mas a maioria recusa-se a encará-lo como tal. Motivos alegados não faltam, como o respeito à autoridade, o desejo de “normalidade”, temores diversos, etc.

Quem sente o mal sem conhecê-lo bem nas suas causas e efeitos, fica perplexo. E o perplexo não age em proporção da gravidade do mal, ou simplesmente não age. Esta inércia torna-se de grande importância para o progresso do mal que tende a destruir ou desnaturar a sociedade onde ele se instalou.

Não há como negar, o liberalismo já faz parte do modo de agir das autoridades da FSSPX. A revelação dos procedimentos discretos do GREC mostrou-nos que já nos anos 90 o propósito acordista   tomava corpo num grupo reduzido, mas poderoso e influente. Durante uma década e meia este propósito foi amadurecendo e se fazendo sentir de modo cuidadosamente calculado, entre padres e fiéis. Pouco a pouco, os contatos com a Roma conciliar foram se tornando mais frequentes, gerando uma espécie de “estado de negociação”, que é a miséria do movimento católico tradicional, pois ele obnubila nas mentes católicas a amplidão, a intensidade e as exigências do estado de necessidade, tão real, mas também tão incômodo. Sem dúvida, não é fácil encarar as autoridades eclesiásticas como elas atualmente são: o Bom Deus se serve delas, mas elas não O servem. Portanto, de nossa parte, reconhecimento e resistência, duas atitudes que, frente à autoridade, só deveriam ocorrer raramente, em situações de exceção. Mas o Vaticano II e seu espírito  institucionalizaram a apostasia silenciosa, forçando-nos a tornar habitual esta atitude difícil, delicada. É a nossa Cruz.

Mas quando não se quer carregar a Cruz, troca-se a resistência pelo compromisso, sacrificando-se assim a coerência nos princípios em nome de uma unidade utópica.

Alguns momentos nesta triste trajetória[ii]:

 

2007: a FSSPX pede o reconhecimento da Missa de sempre. Roma responde com um decreto declarando-a não ab-rogada… mas restringe sua aplicação, além de igualá-la e humilhá-la frente ao rito ilícito de Paulo VI. E a FSSPX? Aceitou e agradeceu, e muitos com ela, entrando assim num falso caminho.

 

2009: a FSSPX pede a retirada do decreto das excomunhões aos bispos. Roma somente levanta as excomunhões, considerando-as assim válidas. A FSSPX mais uma vez aceitou e agradeceu, e muitos com ela, ainda que considerando que estas excomunhões nunca foram válidas. Cada um com a sua verdade…

 

2010: Vieram então as discussões doutrinais, cuja duração e segredo não eram de natureza a tranquilizar os fiéis. Até hoje não sabemos grande coisa delas (segredo maior que o do conclave!); é bem possível que a retidão dos defensores da boa doutrina tenha influído no seu resultado negativo, reconhecido por ambos os lados. Nenhuma mudança: abismo intransponível entre a firmeza na fé e a contumácia no erro.

 

Mas as coisas não iam assim do lado da Direção. O movimento desencadeado por esta não deveria  ser freado. Anunciou-se então a iminência de uma normalização canônica, mas tendo-se o cuidado de precedê-lo de um preâmbulo doutrinal que expressasse “uma compreensão comum da fé”[iii]

Quase um ano depois de enviado, temo-lo diante de nós. Ele é o testemunho de uma vontade de capitulação prática no combate da fé mediante uma profissão explícita de ambiguidade. A ambiguidade é o meio predileto para fazer-se um acordo entre o que é católico e o que não é católico. O próprio D. Bernard Fellay admitiu a ambiguidade, com a sua história pouco edificante de óculos escuros ou cor-de-rosa. A direção de Menzingen estava munida de vistosas armações com grossas lentes cor-de-rosa, mas suas lentes e armações foram quebradas pelo próprio Bento XVI, que com três golpes deitou tudo por terra. No seu modernismo, o papa então reinante foi mais correto que Menzingen no seu tradicionalismo cor-de-rosa: necessário aceitar o Concílio, o magistério deste,  a missa de Paulo VI. É preciso ser claro!

A análise da referida declaração doutrinal, junto à consideração dos fatos aqui brevemente resumidos, é mais que bastante para concluir que estamos diante de um processo de infiltração, intoxicação, com consequente destruição interna, ainda que conservando certas aparências. A infiltração busca se instalar especialmente nos postos de mando, a intoxicação se faz acostumando à frequentação perigosa que fomenta a ambiguidade e a contradição nos ambientes. O objetivo principal no caso presente, é a submissão efetiva do maior número possível de católicos da Tradição às autoridades romanas, sobretudo padres e bispos. Mas se esta submissão não se oficializa, pelo menos deve-se manter o controle do carro-chefe, a FSSPX, cujas autoridades devem manter intactos seus propósitos, não deixando nunca de moldar à sua imagem a mentalidade de seu clero e fiéis.[iv]

 

Apressamo-nos em declarar que não dispomos de nenhuma prova conclusiva mostrando que a direção da FSSPX seja composta de iniciados, maçons, marranos, et caterva. Mas os fatos e documentos demonstram que eles agem de um modo impressionantemente semelhante.

São Bernardo constatava, há 9 séculos, que os judeus praticavam a usura (nihil  novum sub sole)… Mas ele também dizia que os cristãos, quando praticavam a mesma, tornavam-se piores que os judeus. Fazendo a devida aplicação ao caso presente, é o mínimo que podemos afirmar: agem como inimigos infiltrados, movendo-se na ambiguidade e contradição, mas com um objetivo final inalterável, que não é o objetivo para o qual a sociedade que regem foi instituída.

E é isto que legitima uma resistência e deve afastar toda perplexidade. Os perplexos poderiam se interrogar sobre como homens piedosos e que falam tão bem das coisas de Deus poderiam se comportar desse modo; eles os ouvem sem cessar dizer que eles trabalham para o bem da Tradição… Outros poderiam opinar que eles talvez nem percebam seus erros, podendo tudo isto ser considerado como uma ilusão bem-intencionada da parte deles.

Mas são os fatos que contam: o enfraquecimento da doutrina, o prejuízo das almas, a instabilidade da sociedade. Tudo isto em nexo causal com a mudança de orientação na direção, a qual, à medida que se torna mais explícita, torna mais grave a crise.[v]

Esclarecer é necessário. Não se pode esperar uma mudança significativa nessas condições. Esperar, inativo, equivale a ser prejudicado no que há de mais fundamental na vida da alma: a fé teologal, que a tudo deve inspirar. Para continuar a viver da fé, o justo deve denunciar os que a mercadeiam.

 

 

 


[i] Baste-nos aqui citar o já célebre texto da resposta do Conselho Geral aos bispos: “Pelo bem-comum da Fraternidade nós preferiríamos de longe a situação atual de status quo intermediário, mas evidentemente Roma não tolera mais.”

 

[ii] Ver a análise “La Estratégia de Satanás”, em  http://nonpossumus-vcr.blogspot.com.br/2013/01/la-estrategia-de-satanas.html

 

[iii] Pe. Pfluger, em entrevista ao Kirchliche Umschau. Renunciando a ter uma fé comum, o que implicaria necessariamente a conversão da Roma conciliar,  o que se busca agora é uma “compreensão”, a ser instrumentalizada para os fins práticos de um acordo. É querer conviver com o Modernismo, nada mais.

 

[iv] Os frutos desta ação já se fazem amargamente sentir. Ver o artigo “os fiéis têm o direito de saber”, em: http://www.nossasenhoradasalegrias.com.br/search/label/OS%20FI%C3%89IS%20TEM%20O%20DIREITO%20DE%20SABER

 

 

[v] E que não venham nos dizer, com hipocrisia ou cegueira de espírito, que os que denunciam e revelam o oculto das ações subversivas são os causadores da crise. Seriam causadores se o que revelam não fosse verdade. Mas as correspondências entre os bispos e a direção da FSSPX, as condições do último Capítulo, e o preâmbulo doutrinal são inquestionavelmente documentos verídicos. A revelação destes documentos aumenta o conflito? Sim, porque provoca uma reação salutar contra a ação oculta. Não amamos a guerra, mas odiamos ser conduzidos, como cegos , para o buraco.

ir. Joaquim Daniel Maria de Sant’Ana, FBMV.

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