Abril 22, 2013

As Reflexões de um Quase-Papa

Posted in Uncategorized tagged , às 12:21 por MariBarreto

papa Franc.

 

Às vésperas de sua elevação ao trono pontifício, o então cardeal Jorge Bergoglio pronunciou um discurso “magistral, perspicaz, cativante e autêntico”, na opinião do cardeal Jaime Ortega, Arcebispo de Havana. A pedido deste último, o cardeal Bergoglio lhe passou no dia seguinte um texto que reconstituía a intervenção feita na congregação preparatória para o conclave, já que ele só tinha feito antes simples anotações[i].

O texto é dividido em quatro pontos. É breve, mas bem representativo. Aquele que ali se exprime será, dias depois, elevado ao cargo de “Pedra”, sobre a qual está edificada a Igreja de Jesus Cristo. E ele fala sobre a Igreja; é a sua visão, o seu programa.

E esse programa apresenta características que coincidem com as que foram apontadas por um de seus eleitores, o progressista cardeal Walter Kasper, quando recentemente se referiu aos documentos do Concílio Vaticano II: “Os textos conciliares tem em si um enorme potencial de conflito, sendo uma porta aberta à recepção seletiva em uma ou outra direção”[ii].

É preciso compreender que tratamos com eclesiásticos fortemente influenciados por correntes filosóficas que se recusam a assinalar à inteligência o papel que lhe foi conferido pelo Criador, ou seja, o de atingir a realidade como ela é. Encarcerada no domínio do sensível, limita-se esta a ser instrumento de afirmação do “eu” humano, estabelecido arbitrariamente em primeiro lugar. Nessas condições, os princípios da inteligência são esvaziados de seu valor absoluto, verdade e contradição deixam de se opor radicalmente, passando a ser usados seletivamente, em vista dos objetivos estabelecidos pelo mesmo “eu” humano.

Esses objetivos podem ser muito variados, mas o que importa frisar aqui é que o discurso de prelados como este conterá necessariamente ambiguidades e imprecisões, pois uma mente que não funciona de maneira conforme ao princípio de contradição produzirá coisas desse tipo, já que seu utilizador se esforça em crer que, se existe uma verdade, esta é atingida por outros meios, não por sua inteligência.

Essas reflexões são assim, como as páginas ora católicas, ora racionalistas de que falava São Pio X. A evangelização é a razão da Igreja, diz-se na introdução, mas a condição para esta é a de que ela saia de si mesma. Para onde? Em direção a tudo o que se opõe a ela, ou dela precisa: periferias (inclusive as “existenciais”), a dor, a injustiça, o pecado…

Se não fizer isto, a Igreja fica doente. E a doença é descrita como “auto-referencialidade” e “narcisismo teológico”. E a Igreja que tem a si própria como referência, e cuja teologia justifica isto, não deixa o próprio  Cristo sair dela. Assim, quando a Igreja sai de si própria, Cristo sai do interior desta.

As calamidades descritas não param aí. Sendo auto-referencial, a Igreja crê involuntariamente ter uma luz que lhe é própria. E termina por cair numa “espiritualidade mundana”: vive para os louvores mútuos. O resultado de tudo isto é tornar-se uma Igreja mundana, em contraposição ao que deveria ser, quer dizer, a uma Igreja evangelizadora que sai de si própria.

Como se vê, temos ampla matéria para recepção seletiva… Uma delas consistiria em interpretar o “Igreja sair de si mesma”, como “os membros desta sair de si mesmos”. Deveríamos então abandonar nosso egoísmo que nos leva a considerar Nosso Senhor como patrimônio próprio, nos orgulhando com isto, e louvando-nos mutuamente também  por causa disto, matando em nós o espírito evangelizador.

Mas os termos “auto-referencial”, e mais ainda “narcisismo teológico” dão azo a outra recepção seletiva, esta bem menos forçada, de que a Igreja que não deixa Cristo sair, e não evangeliza, é a que se coloca como centro, que se considera como a verdadeira[iii], fechando-se assim para as realidades periféricas do mundo. Trata-se de uma mentalidade que se traduz em doutrinas, e de doutrinas que embasam toda  uma vida eclesiástica que tende a girar em torno de si própria, complicando-se e tornando o organismo incapaz de se abrir.

A imagem já antiga de João XXIII abrindo as janelas nos vem espontaneamente à mente. Recentemente, o pregador da Casa Pontifícia não comparou a Igreja ao castelo complicado e assombroso de Franz Kafka?[iv]  Em apoio desta recepção temos também uma das últimas homilias do já papa Francisco, na qual censura os preguiçosos que não querem seguir o sopro do Espírito Santo, a fim de cumprir tudo o que esse mesmo Espírito disse no Vaticano II[v].

Sim, a Hermenêutica da Continuidade é algo de muito complicado, melhor seria simplesmente seguir o tal sopro e ir adiante, sem se preocupar muito com continuidades impossíveis… É bem possível que a Reforma da Reforma acabe neste pontificado se metamorfoseando em Revolução dentro da Revolução. O referido texto sinaliza mais neste sentido, e todo o currículo anterior de Jorge Bergoglio, além da ambiência em que se movem seus apoiadores, fortalece esta hipótese.  Se confirmada, será mais uma decepção para todos os sonhadores que imaginam que se possa fazer uma lenta restauração em pleno liberalismo. Mas os dois nunca se combinam.


[i] Ver em: http://www.zenit.org/fr/articles/l-intervention-du-card-bergoglio-avant-le-conclave

[ii] Ver em: http://fratresinunum.com/2013/04/18/um-concilio-ainda-em-caminho/#more-25695

[iii] Crê involuntariamente possuir a luz, e sua referência é ela mesma, baseando-se em “velhas frases” do  tipo “Fora da Igreja não há salvação”.

[iv] Ver em: http://fratresinunum.com/2013/04/18/profeta-de-desgracas/

[v] Ver em: http://www.gaudiumpress.org/content/45848-Papa-Francisco-afirma-que-Concilio-permanece-inaplicado

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